SUPER EL NIÑO 2026: O QUE A HISTÓRIA DE 1877 PODE NOS ENSINAR?
17/08/2026 - Meio Ambiente, Sustentabilidade e Agronegócio
O El Niño de 1877–1878 entrou para a história como um dos mais intensos já registrados. Associado a uma combinação excepcional de alterações nos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico, contribuiu para secas e perdas agrícolas em diferentes continentes. Estudos estimam que a grande crise alimentar daquele período tenha provocado mais de 50 milhões de mortes no mundo. No Brasil, esteve associado à Grande Seca que atingiu principalmente o Nordeste. Estima-se que cerca de 500 mil pessoas tenham morrido nas oito províncias afetadas, enquanto a falta de chuvas comprometeu lavouras, rebanhos e o abastecimento de alimentos. Quase 150 anos depois, o episódio evidencia os impactos que eventos climáticos extremos podem provocar sobre territórios vulneráveis. A comparação, porém, exige cautela. Nenhum El Niño produz exatamente os mesmos efeitos, pois sua influência depende da intensidade, duração e interação com outros fenômenos atmosféricos. Ainda assim, o passado serve como alerta. Para o Rio Grande do Sul, episódios fortes costumam favorecer maior frequência e volume de chuvas, aumentando os riscos de temporais, enchentes, erosão e perdas agrícolas. Esse cenário preocupa especialmente porque o Estado ainda convive com as consequências de extremos recentes. Nos últimos anos, enfrentamos estiagens severas, perdas sucessivas de safras e, em 2024, uma das maiores tragédias climáticas da nossa história. Existe ainda uma diferença fundamental entre 1877 e 2026: hoje, esses fenômenos ocorrem em um planeta mais quente, com uma atmosfera capaz de armazenar mais umidade e favorecer precipitações extremas. Nesse novo cenário, sustentabilidade também significa antecipação. Previsões climáticas precisam chegar ao produtor, às empresas e aos municípios e ser incorporadas às decisões sobre plantio, estoques, seguros, crédito, obras e investimentos. Adaptar-se ao clima exige transformar informação científica em planejamento econômico e territorial, reduzindo prejuízos antes que o evento aconteça. Não podemos controlar o El Niño, mas podemos reduzir nossa vulnerabilidade aos seus efeitos. Se 1877 deixou alguma lição para 2026, talvez a principal seja justamente esta: eventos climáticos extremos se tornam grandes desastres quando encontram sociedades despreparadas.
Fonte: Por Alexandre Hüller, in: https://www.jornalgazeta.com.br/colunas/alexandrehuller




