GELEIRAS EM COLAPSO: O ALERTA QUE VEM DO NEPAL
31/08/2026 - Meio Ambiente, Sustentabilidade e Agronegócio
As imagens que chegam do Nepal impressionam pela dimensão da tragédia. No dia 26 de agosto, uma enorme massa envolvendo gelo e rochas se desprendeu na região do Himalaia, próxima à fronteira com o Tibete, desencadeando uma sequência de avalanches, lama e inundações. O material percorreu cerca de 100 quilômetros pelos vales e rios da região, destruindo comunidades e infraestruturas e deixando centenas de mortos e milhares de desaparecidos. A energia liberada pelo movimento foi tão intensa que produziu um sinal sísmico equivalente ao de um terremoto de magnitude 5,2. Entretanto, o episódio não pode ser observado apenas como mais um desastre natural distante da nossa realidade. As geleiras do Himalaia estão passando por rápidas transformações. Estudos recentes apontam que, entre 1990 e 2020, elas perderam cerca de 12% de sua área e aproximadamente 9% de suas reservas de gelo, enquanto a velocidade de perda aumentou significativamente desde o início deste século. O problema ganha dimensão ainda maior porque o gelo e a neve dessa região alimentam grandes sistemas fluviais dos quais dependem, direta ou indiretamente, quase dois bilhões de pessoas. O aquecimento das regiões montanhosas modifica geleiras, solos congelados e encostas, aumentando a instabilidade de ambientes que permaneceram relativamente equilibrados durante séculos. Inicialmente, o derretimento acelerado pode ampliar enchentes e formar lagos glaciais perigosos. No longo prazo, porém, a redução das geleiras ameaça diminuir a disponibilidade de água para populações, agricultura, produção de energia e ecossistemas inteiros. É nesse ponto que o Nepal deixa de ser tão distante de nós. No Rio Grande do Sul não temos geleiras, mas também estamos aprendendo que mudanças relativamente pequenas no equilíbrio climático podem produzir consequências enormes quando encontram territórios vulneráveis. Estiagens prolongadas, chuvas extremas, enchentes e perdas agrícolas fazem parte dessa mesma necessidade de compreender e antecipar riscos. A tragédia do Nepal deixa uma mensagem que ultrapassa suas montanhas: sustentabilidade também significa reconhecer que os sistemas naturais possuem limites. Quando esses limites começam a mudar, adaptar nossas cidades, atividades econômicas e formas de ocupar o território deixa de ser uma escolha para se tornar uma necessidade.




